quinta-feira, 3 de setembro de 2009

A Escadaria entre a EE Maurilio Albanese Novaes e a Rua Raul Soares

Neander Sathler Andrade


79 degraus, 28 patamares, 6 lances de escadas e 6 largos entre os lances da escadaria. Um equipamento urbano que vence em torno de 40 metros de altura ligando a parte baixa (buraco do Bela Vista) à parte alta do bairro.

Nos degraus definidos com 17 ou 18 centímetros no espelho e 29 no piso, a escadaria encontra-se num estado de conservação satisfatório, necessitando de pequenos ajustes no sentido de manutenção e reparo de algum desgaste.

Margeada por morro de mato alto que, no período de chuva, cresce rápido, possui canaletas para micro drenagem, grandes patamares, vestígios do que um dia já foram bancos para permanência. Há também uma espécie de área em clareira de largos degraus. Os patamares são ligeiramente inclinados. Os bancos de concreto parecem terem sido demolidos intencionalmente.

Existem ainda três pistas de down hill dentro do corpo da escadaria.



Um equipamento estratégico, na sua implantação, pela possibilidade de acesso à parte mais alta do bairro: essa é sua função de origem.

Estratégico também quando sub utilizado, o lugar vazio torna-se espaço para práticas marginais quando é percebido que poucas pessoas freqüentam o local. Desta maneira fica observada como um tipo de poder que é atribuído a toda pessoa que utiliza a cidade e que constantemente, faz com que o próprio desenho urbano seja transformado.

Ainda que uma prefeitura, por exemplo, ofereça uma infra-estrutura à população, essas pessoas podem não ter algum interesse em utilizá-la. Nesse caso, podem não querer ir até a parte mais alta do Bela Vista, ou raramente ir a pé, podendo utilizar o automóvel para isso.

A proposta é de que, em algum momento, os degraus deixem de ser elementos verticais de acesso e se tornem assentos, deixem de ser simples apoio para o corpo para se transforme em um auditório; dependendo da necessidade, já não se apresentará mais como área de exibição, podendo se caracterizar numa área de leitura, com seus generosos patamares livres para o estudo e degraus redesenhados como prateleira.

A escadaria agora será uma biblioteca graças à sua proximidade com a escola. A escadaria já não mais será um espaço marginalizado porque a comunidade está mais próxima.



A partir do momento em que a escadaria está pronta, ou seja, quando o poder público entrega a obra à cidade e se retira, o indivíduo tem o poder de não apenas utilizar essa estrutura, ele pode transformá-la diante de uma necessidade de realizar uma ação não prevista naquele local. O vendedor ambulante faz isso o tempo todo na cidade, geralmente estabelecendo o ponto de serviço dentro de um percurso/fluxo de pessoas.

O fluxo nas proximidades da escadaria é consideravelmente baixo, de pouco interesse por parte dos moradores do bairro. Porém a escola estadual é um ponto de passagem para muitos alunos, mesmo que por um espaço de tempo bem definido, quando acontece a entrada e saída da escola, e no intervalo entre aulas.

Quando observada uma quantidade de estudantes, pode se imaginar o quanto aquilo pode ser rentável, colocado como um interesse econômico, para uma prática informal, que motive algum ambulante a fixar um ponto para oferecer algum serviço; a área por ele escolhida estrategicamente no percurso entre a escola e a casa dos alunos, professores e funcionários, mais uma boa parcela da comunidade que estará próxima o suficiente para usá-la.

Em um outro momento, pelo apurado, nos finais de semana pela manhã, um grupo local de três ou quatro ciclistas desce pela pista, utilizando a escadaria como percurso - uma prática esportiva pouco comum que demonstra interesse no espaço e consegue estabelecer uma nova utilidade.

Os exemplos do ambulante e dos ciclistas são notáveis pela escala de poder estabelecida dentro da cidade e suas comunidades, dentro de uma organização em que instituições públicas não conseguem atingir. Isso se dá por questões que vão desde a burocracia até a precária percepção de cidadania por parte de autarquias, quando essas lideranças não observam práticas informais como desenvolvimento humano. Resta então a emancipação, a permissão que cada indivíduo possui para interferir no espaço comum.

A partir da percepção de relação entre equipamentos públicos, comunidade e demandas sociais no bairro Bela Vista, desenvolve-se uma proposta de intervenção em micro escala, de impactos reduzidos e baixo orçamento. Faz-se necessário um projeto articulado entre uma proposta e seus incentivadores, com caráter experimental para posteriores análises e desenvolvimento em seqüências.