quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

Microurbanismo












79 degraus, 28 patamares, 6 lances de escadas e 6 largos entre os lances da escadaria. Um equipamento urbano que vence em torno de 40 metros de altura ligando a parte baixa (buraco do Bela Vista) à parte alta do bairro. Com degraus definidos com 17 ou 18 centímetros no espelho e 29 no piso, a escadaria encontra-se num estado de conservação satisfatório, necessitando de pequenos ajustes no sentido de manutenção e reparo de algum desgaste.

Margeada por morro de mato alto que, no período de chuva, cresce rápido, possui canaletas para micro drenagem, grandes patamares e vestígios do que um dia já foram bancos para permanência. Há também uma espécie de área em clareira de largos degraus. Os patamares são ligeiramente inclinados. Os bancos de concreto parecem ter sido demolidos intencionalmente. Existem ainda três pistas de down hill dentro do corpo da escadaria.

Um equipamento estratégico, na sua implantação, pela possibilidade de acesso à parte mais alta do bairro: essa é sua função de origem.

Estratégico também quando sub utilizado, o lugar vazio torna-se espaço para práticas marginais quando é percebido que poucas pessoas freqüentam o local. Desta maneira fica observada como um tipo de poder que é atribuída a toda pessoa que utiliza a cidade e que constantemente, faz com que o próprio desenho urbano seja transformado.

Ainda que uma prefeitura, por exemplo, ofereça uma infra-estrutura à população, essas pessoas podem não ter algum interesse em utilizá-la. Nesse caso, podem não querer ir até a parte mais alta do Bela Vista, ou raramente ir a pé, podendo utilizar o automóvel para isso.

A proposta é de que, em algum momento, os degraus deixem de ser elementos verticais de acesso e se tornem assentos, deixem de ser simples apoio para o corpo para se transforme em um auditório; dependendo da necessidade, já não se apresentará mais como área de exibição, podendo se caracterizar numa área de leitura, com seus generosos patamares livres para o estudo e degraus redesenhados como prateleira.

A partir do momento em que a escadaria está pronta, ou seja, quando o poder público entrega a obra à cidade e se retira, o indivíduo tem o poder de não apenas utilizar essa estrutura, ele pode transformá-la diante de uma necessidade de realizar uma ação não prevista naquele local. O vendedor ambulante faz isso o tempo todo na cidade, geralmente estabelecendo o ponto de serviço dentro de um percurso/fluxo de pessoas.

O fluxo nas proximidades da escadaria é considerado baixo, de pouco interesse por parte dos moradores do bairro. Porém a escola estadual é um ponto de passagem para muitos alunos, mesmo que por um espaço de tempo bem definido, quando acontece a entrada e saída da escola, e no intervalo entre aulas.

Quando observada uma quantidade de estudantes, pode se imaginar o quanto aquilo pode ser rentável, colocado como um interesse econômico, para uma prática informal, que motive algum ambulante a fixar um ponto para oferecer algum serviço; a área por ele escolhida estrategicamente no percurso entre a escola e a casa dos alunos, professores e funcionários, mais uma boa parcela da comunidade que estará próxima o suficiente para usá-la.

Em um outro momento, pelo apurado, nos finais de semana pela manhã, um grupo local de três ou quatro ciclistas desce pela pista, utilizando a escadaria como percurso - uma prática esportiva pouco comum que demonstra interesse no espaço e consegue estabelecer uma nova utilidade.

Os exemplos do ambulante e dos ciclistas são notáveis pela escala de poder estabelecida dentro da cidade e suas comunidades, dentro de uma organização em que instituições públicas não conseguem atingir. Isso se dá por questões que vão desde a burocracia até a precária percepção de cidadania por parte de autarquias, quando essas lideranças não observam práticas informais como desenvolvimento humano. Resta então a emancipação, a permissão que cada indivíduo possui para interferir no espaço comum.

A definição do termo microurbanismo é percebida nas relações de escala reduzida dentro do desenho urbano, numa escala onde o corpo humano é considerado pelos projetos arquitetônicos e urbanísticos.

Desta forma, considerar o corpo humano, é saber o que acontece em uma comunidade e identificar seus anseios para que a intervenção seja uma resposta íntima. O ambiente íntimo, mesmo o coletivo, é o lugar onde as pessoas se sentem confortáveis, o local que lhe é familiar, ontem elas encontram suas memórias, estabelecem poder e faz comunicar seus manifestos.

Vladimir Bartalini (¹) publica em seu artigo propostas de intervenção ambiental desenvolvida na universidade considerando um parque urbano. Dentro das proposta destaca-se o projeto intitulado Aves-pipas, com o objetivo de articulação entre arte e paisagem, (...) associar a polinização da flora pelas aves e insetos (pipas) à importância da participação das pessoas, que freqüentam ou atravessam o parque, na disseminação das qualidades do lugar.(¹)

Já o exemplo de Jorge de Dios (²) é pautado na relação de poder público e poder informal, observando que o espaço ocioso dentro do desenho urbano é estratégico para instalações de ambulantes e outros servidores informais. Porém a legislação ou outros instrumentos municipais ignoram o fato de que também as atividades informais, são condicionantes de desenvolvimento humano.

Nos dois casos, tanto o protótipo pipa quanto os espaços apropriados pelas práticas informais – podendo considerar também seus equipamentos – encontram-se numa escala menor, geralmente invisível nos mapas e imagens aéreas, porém é percebida a olho nu dentro do cotidiano.

Observando situações de inserção no desenho urbano fica evidente a necessidade de pequenas estruturas de apoio para os diversos eventos que ocorrem pela cidade. Destaca-se então a mobilidades e o porte físico destes equipamentos, que na maioria das vezes são confeccionados de improviso pela própria pessoa que irá utilizá-lo.

O arquiteto Eduardo Moreira (³) expõe a possibilidade de se olhar para essas pequenas causas e permitir que através de um projeto, seja arquitetônico ou de design, soluções mais “íntimas” possam dar respostas às necessidades do usuário.

Desta forma o corpo não seria posicionado, de acordo com o objeto, que não o considerou no momento de sua execução. Portanto a necessidade do usuário, mediante as observações de seu porte físico e os outros objetos que esse indivíduo possa precisar, deverá ser considerada no projeto de um equipamento.

Em um destes exemplos uma vendedora teve seu equipamento reduzido de uma cadeira e uma mesa para uma única cadeira dobrável com rodas, foram também instalados apoios para bolsa e porta objetos. Desta forma ela possui em equipamento único, compactado e leve, isso significa que o objeto é de fácil acessibilidade, pois é também facilmente guardado e retirado para utilização.

Esses objetos se multiplicam em tipologias extremamente particulares, pelo fato talvez da indústria não promover uma produção considerada deste porte de equipamentos, porém seria também uma forma de permitir cada vez mais, que esses projetos sejam desenvolvidos “sob medida”, com a participação ativa de seu usuário, considerando seu corpo, locomoção no desenho urbano e acessibilidade.

REFERÊNCIAS

(1)VLADIMIR BARTALINI. Arte e paisagem: uma união instável e sempre renovada. Disponível em: . Acesso em: 26/6/2008
(2)JORGE DE DIOS. O gato e o rato. Ambulantes urbanos e poder municipal. Disponível em: . Acesso em: 3/9/2009.
(3) CAMPOS, Alexandre, TEIXEIRA, Carlos, CANÇADO, Wellington, MARQUEZ, Renata. Espaços Colaterais. Instituto Cidades Criativas. 2008. p. 85-96.

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